quarta-feira, 14 de abril de 2010

Perfeição: a experiência genética

Muito já se escreveu sobre prodígios da ciência, muitas foram as projeções que se fizeram ao longo dos anos sobre as maravilhas que nos seriam proporcionadas por esse monstro voraz chamado saber científico, porém nada foi mais audacioso (nem nunca será, suponho) do que a pretensão de um certo cientista, determinado a encarnar a perfeição em seio humano.
Sim, o sonho de ser perfeito, presente em todas as civilizações desde tempos imemoriais, parecia possível naqueles primeiros lustros do século XXII, graças à invenção do referido cientista: o acelerador genético. O nome, pomposo, logo caiu no gosto dos veículos de comunicação, de forma que, de repente, o planeta inteiro fervilhava com o mais novo engenho desse bicho autodenominado sabido.
Restava uma questão em aberto: quem iria participar do tão celebrado experimento? Por meios incertos e desconhecidos, foram selecionadas quatro crianças, sendo eu uma delas, para cumprirem o venturoso destino de se tornarem perfeitas e, posteriormente, iluminarem o resto da humanidade com essa dádiva. Ora, já não éramos tão pequenos, tínhamos nossa própria noção de mundo. Por isso, uma observação atenta do período em que fomos "acelerados" poderia prever as tortuosas consequências dessa empreitada.
Assim que adentramos o imponente saguão do prédio onde funcionaria a máquina, fomos batizados com números. Posto ser o 4, relatarei de início a conduta de meus companheiros para depois discorrer sobre mim.
Encolhido em algum canto, 1, menino mirrado, marmoreamente branco, olhos embaçados, leitosos, emoldurados por rouxidões impenetráveis, vivia a choramingar, mergulhado num golfo de tristeza sem fim, que o mantinha afastado de nossas brincadeiras e fazia-o soltar gélidos gemidos durante o sono (especulávamos que tal condição resultava de profundos traumas freudianos). 2, por seu turno, trazia os dedos, delgados e escorregadios, sempre ágeis, prontos a capturar o que lhe agradasse; olhava ávido e guloso para tudo e todos, seus lábios curvando-se para cima num maquiavélico sorriso (características bem justificadas, dado que ele vinha de uma tradicional família de mafiosos italianos - cujo poder deve ter imposto a participação na experiência). Já 3 era, de longe, o mais eloquente: tinha o hábito de discursar para plateias invisíveis, conquistando imensa admiração por parte dos cientistas e deixando-nos profundamente aborrecidos (mas, fazer o quê, seu progenitor era um influente político, sinal de que o nepotismo se infiltra nos lugares mais insuspeitos). Enfim, havia eu, menino pacato, fala tranquila, sem ambições na vida; digamos que me configurava como um representante exemplar da sociedade, ou, em linguagem mais clara, era um típico zé-ninguém da classe média.
Bem, creio que, a essa altura, o leitor já seria capaz de imaginar os resultados daí provenientes, mas, por desencargo de consciência, deixarei tudo bem explicitado.
Ao final do confinamento, 1 mostrou-se um depressivo perfeito, e, como não poderia deixar de ser, sublimou-se com a glória maior dos desesperados, eternizada na prosa de um certo alemão: suicidou-se, espantando a todos os que se entusiasmaram com o invento do século. Não foi só isso, contudo. 2 tornou-se o criminoso perfeito, cappo de dar inveja a Marlon Brando, alçando sua máfia ao comando efetivo das mais altas instâncias do poder. 3 saiu o político perfeito, elegeu-se presidente da República com aclamação popular que nenhum César jamais experimentou e permanece até hoje no cargo, dobrando qualquer opinião contrária com sua retórica milagrosa.  Eu, o quarto participante, de nunca esperar nada na vida, converti-me num perfeito ninguém, a quem apenas a idade trouxe a sabedoria e o discernimento. 
O mais engraçado dessa história toda é que, se o tal cientista que criou e pôs em prática esse projeto de aceleração genética tivesse lembrado os dizeres daquele simpático físico brincalhão, que posava pra foto com a língua de fora, entenderia que não existe perfeição absoluta e se resignaria a ver em cada pessoa um infinito de possibilidades, algumas prestes a se realizar, muitas fadadas ao completo limbo da inexistência.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Carnaval

Ruas intermináveis descortinavam-se à sua frente, convidativas como brigadeiros e beijinhos daquela festa que nunca teve. Tudo era motivo de lágrimas, em plena agitação geral, quase uma convulsão febril coletiva, que revolucionava os espíritos num transe anímico de proporções bestiais. Mas, como se disse, tudo era motivo de lágrimas. Risos, cantos, pulos, a efervescência dos hormônios transbordando por poros rasgados ao vento, prostituídos, à espera de um consolo abrasador. E no meio disso, lágrimas, intermitentes lágrimas, incômodas lágrimas, inefáveis lágrimas. Tantas ocasiões mais propícias, e elas calharam de vir à tona logo ali, no mais inoportuno dos momentos e no mais inconsequente dos lugares. Sorte sua não lhe prestarem muita atenção: a música acabara de atingir o que parecia seu ápice, subindo a picos cada vez mais elevados de uma energia incontrolável. Um desavisado qualquer seria brutalmente surpreendido pelo arroubo frenético que possuía a todos, mas ele já estava acostumado a esses ciclos contínuos de explosão. Perguntava-se, aliás, por que não explodia também, porque não esquecia a tristeza que lhe engolfava a alma e liberava seu corpo à ação extasiante das dopaminas e endorfinas prontas a mergulhá-lo no mais incrível dos prazeres. A cada pensamento desse, contudo, só reagia banhando seu rosto mais uma vez com o néctar supremo dos fracos e deprimidos. E quando porventura resolvia levantar a cabeça, secar os redondos zigomas que sustentavam suas monstruosas bochechas, deparava-se com aquele amontoado de ruas, como se estivessem estendendo-lhe uma mão invisível ou sussurrando-lhe ao pé do ouvido uma mensagem incompreensível, vinda de quem menos esperava - e, àquela altura, incapaz de acender nele uma faísca sequer de esperança. Restava-lhe, pois, chorar e chorar e chorar, ao som da música que tocara na festa que nunca teve.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Desventuras de um jantar a dois

Estava tudo normal. A situação permanecia inteiramente sob controle. Tudo transcorria dentro da mais absoluta normalidade, não havendo, portanto, motivo para nenhum cisco de ansiedade ou temor. Podia ficar tranquilo que aquilo era normal. Normalíssimo. Nada de extraordinário. Mas por mais que permanecesse repetindo mentalmente essa interminável ladainha, nunca ia conseguir se convencer da normalidade dos fatos. Ele era um daqueles tipos medíocres, que não interessa a ninguém, passa despercebido mesmo. Sentia em seu íntimo que o único significado para sua existência era arredondar o número de habitantes do planeta. Fora isso, não tinha nenhuma utilidade. Talvez seu próprio reflexo desse conta de suas tarefas melhor do que ele. Enfim, feitas essas considerações, era incapaz de imaginar uma razão qualquer para o convite que lhe fora feito de manhã pelo estonteante espécime do sexo feminino ora sentado à sua frente. E a absurda irracionalidade desse acontecimento fora suficiente para disparar os mais potentes gatilhos bioquímicos dos quais nosso organismo dispõe para nos colocar em alerta contra possíveis perigos. Ou seja, o ar a seu redor subitamente adquiriu densidade esmagadora, suas narinas dilataram-se em buracos que abarcavam com folga as duas coxas de peru depositadas sobre seu prato, seus lábios crisparam-se num movimento repentino e áspero, revestindo-se de uma secura digna de um Saara, seus poros deram vazão a sucessivas gotas de um suor gélido e abundante, que brotava das reentrâncias mais obscuras de seu corpo, os pelos de sua nuca eriçaram-se com uma rapidez que seu pênis nunca conseguiria imitar, e assim por diante. E a cada trocar de olhos, a cada roçar de pernas minimamente calculado, as batidas de seu coração atingiam patamares cada vez mais preocupantes de aceleração. Nem os incessantes sorrisos acolhedores que lhe eram enviados pelo par de lábios carnudos majestosamente tingidos de vermelho conseguiam acalmar a revolução hormonal que se passava dentro dos inúmeros vasos sanguíneos espalhados por sua superfície corpórea. Todo esse crescendo angustiante, por fim, encontrou um ápice a contento: ao encarar seu rosto refletido na bandeja vazia trazida diligentemente pelo garçom, entendeu: ele era o prato principal.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Metafísica do nada

Estava lá. Em algum lugar indefinível pelos milhares de palavras que trazia eternamente escondidas em algum recanto obscuro da memória. Bastava saber que estava lá, e não aqui. Pois aqui não poderia sentir azuis e vermelhos como sentia lá. Com algumas leves nuances de rosa no meio. Talvez isso desse uma resposta definitiva para as perguntas que nunca tivera a coragem de fazer. Ou talvez tudo se resolvesse na infindável espiral de ópio que se via obrigada a encarar, numa tentativa deveras inútil de sobreviver. Lá podia ser metafisicamente, ainda que precisasse de remédios substantivadores para suportar a dor de ter uma alma. Somente lá dera-se conta do absurdamente maravilhoso, que trazia consigo o absolutamente terrível, do qual ninguém consegue escapar a não ser despojando-se de tudo o que traga a mínima ideia de autoconsciência. Lá impunha-se uma rígida disciplina desafiadora, sempre com a vaga - mas persistente - esperança de romper os limites do intransponível. Coisa que não teria condição alguma de pensar caso permanecesse aqui, presa num emaranhado de correntes insolúveis a lhe sorver constantes sopros da mente. De qualquer maneira, continuava saboreando a infinidade de azuis e vermelhos que não cessavam de passar bem na sua frente, tentando extrair deles ao menos uma sombra de roxo para apaziguar os ardentes anseios da vontade. Mas - ironia cruel do destino - lá, apenas lá, caiu em si. E embora todo o universo conspirasse para com isso compor uma possante sinfonia em dó maior, ou também uma alegre sonata indefinida em ré, a única coisa que lhe passou pela cabeça foi a certeza de sua sina inexorável. Por mais que tivesse chegado lá, sua vida não passaria de um eterno tender ao infinito, sempre se dissolvendo em amargas cores e assim tornando-se projeção contínua de um não-eu quase morto. Veja bem, quase. Nunca teria a graça de receber um ponto final que acabasse com suas angústias repentinamente. E, então, quando o lá se convertesse em aqui, estaria novamente perdida, pronta pra se jogar inteiramente no primeiro abismo que encontrasse - para descobrir que dentro do espelho a realidade nunca é o que parece ser.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Amenidades urbano-coletivas

Os sacolejos do ônibus eram particularmente inspiradores naquela situação peculiar. E as andorinhas voavam livres por entre um céu encoberto e áspero. Conversas entrecruzavam-se em saltos acrobáticos mirabolantes até atingirem a suave membrana do tímpano do receptor desejado e de alguns (vários) indesejados. Não tivera muita sorte de conseguir um lugar na cadeira dura, de traços antianatômicos, contra tudo o que pregam os mais experientes especialistas do ramo. Sem contar os odores de múltiplas tonalidades que lhe eram servidos logo acima de suas vias respiratórias aéreas pelas axilas mal lavadas (algum dia teriam sido lavadas?) de algum inoportuno usuário de camiseta regata e de forma alguma consumidor de desodorantes. Um cenário, enfim, como poderíamos defini-lo... coletivamente urbano. Ou urbanamente coletivo, talvez. Para todos os efeitos, convidava a uma profunda reflexão de ordem escatológico-moral sobre o que havia esquecido de comprar no supermercado. Sim, porque, além da infinidade de pequenos detalhes acima expostos, ainda devemos acrescentar um razoável número de sacolas plantadas a seus pés, as quais, num dia de frio, fariam o favor de aquecer o retorcido conjunto de joanetes que trazia grudado a seus tornozelos, mas naquele suave calor de uns 40º na geladeira - calor esse que os ursos polares vão ter de suportar dentro de breves anos, até meses (que o digam os sapientíssimos doutos do IPCC) - serviam apenas para estimular suas glândulas sudoríparas podais, que lentamente destilavam seu líquido para dentro de uma das sacolas, o qual se misturava com a água derretida do chester anteriormente congelado. Enfim, no fundo sabia que não tinha esquecido nada, mas ia chegar em casa, ser espancada por qualquer razão fútil de seu marido etilizado (não confundam com elitizado, por favor!), e então arrumaria alguma coisa pra ter esquecido e voltar novamente ao mercado. Acordaria no dia seguinte bem cedo, umas 7h, provavelmente, enquanto o nobílissimo esposo ainda dormia, fruto dos excessos da noite, se arrumaria (e não arrumar-se-ia, quer mesóclise, vá ler Machado de Assis) e iria pro ponto (de ônibus, mente pervertida!). Pronta pra mais uma jornada na coletividade urbana. Ou urbanidade coletiva, que seja.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Ilogicidade ou Millôr revisitado

Sólidas formações incolores perpassam anis elétricos refulgentes. Corre. Corre corre corre corre corre. Vamos fugir? Não. Não curtia Skank. Não gostava de Skank. Odiava Skank. Foda-se o Skank! Agora anda. Anda... anda... anda... Ainda anda a onda? Ondas não andam. Qualquer um sabe disso. A lápide marmórea convida  para alguma coisa que não seja comer cachorro-quente. Lápides não combinam com cachorros-quentes nem com begônias. O rato passa correndo e entra num buraco. Como não tem enterro, pra que onomatopeias? Será que os outros nunca ouviram ratos passando por aí? De qualquer modo, com toda a certeza já se refugiaram em cavernas labirinticamente intrincadas moldadas por forças ocultas dentro da mente. Pensa. Pensa ... hic... pensa... hic, hic, hic... pen... hiiiic. Não se pode pensar soluçando. Precisa de um susto. Nada melhor do que a terra cheia de minhocas revolventes para acalmar espíritos aflitos e refrescar quenturas nos pés. Os índios andam descalços. E pelados também. Por isso trocam as minhocas por mandiocas. Ou macaxeiras, caro nordestino. Quer dizer, barato, quem manda aquele povo ter tanto filho, depois querem ter altos salários. Pff. Que façam pós-doutorados e depois venham discutir. Ah, pra quem ainda tem alguma esperança, desistam da rapadura, ela é produto japonês. Como diz o ditado, pode ser doce, mas é dura, ou algo do tipo. Quem se importa com sintaxe desde que Bilac morreu? Contudo, nunca se esqueça... oooopaa, quase caiu. Queria era voar. Voooaaaarrr. Livre no ar. Eita rima besta. Não adianta, por mais que tenta acaba saindo. Como merda. Vem nas horas mais impróprias. Pior quando é líquida. Ninguém segura. Putz, teve um insight:: o Brasil não passa de diarreia, como bem previram os militares uns trinta, quase quarenta anos atrás. Agora me diga uma coisa: como pode o peixe vivo viver fora da água fria? Pergunte pro Juscelino, oras. Falando nisso, hora de descansar. E torcer para o sono vir. Senão, santo Sulpan. Ou se não? Talvez senão seja um seno bem grandão que em cima do cossenão vira tangentona. Ah, se Pitágoras tivesse previsto isso... Peraí, cadê o narrador? Deve ter sumido ou ido ao banheiro. Daqui a pouco volta. (...)³ De repente caiu e bateu a cabeça - não disse que ele vinha? O cérebro vazou. Daquele dia em diante, uma poça permanente é vista na calçada.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Feriado na metrópole

A rua deserta. Feriado na metrópole. Praias lotadas, montanhas nem tanto. Mas cidade vazia. Exceto por ele ali naquela rua varrida pelo vento que mais parecia um furacão quase arrancando sua cabeça do pescoço seu olhos secos começando a lacrimejar sua boca impiedosamente entortada suas bochechas querendo cobrir a face toda. Consequência da idade tudo vai caindo como Newton já previra um bocado de tempo atrás e se enchendo daquela flacidez deprimente. Anyway (como diria um daqueles personagens de seriados americanos que ele tanto gostaria de ser meu deus daria tudo pra se tornar um friend da Jennifer Aniston) estava ali, naquela rua, com uma vaga esperança de que poderia enfrentar a fúria eólica (credo que coisa mais greco-latina como odiava isso desde as aulas de literatura se pudesse teria matado Homero Dirceu Marília deitados na relva e não podia se esquecer do crápula que era o Bilac) que parecia não oferecer chance pruma trégua. A bem da verdade mal sabia pra onde andava qual era seu rumo, tinha impressão de que sua casa ficara uns dois quarteirões pra trás mas sentia que precisava seguir em frente. Passou diante do ponto de ônibus em que costumava parar todos os dias pra ir trabalhar. Como sentia nojo daquele monte de papel colado no banco a prefeitura devia fazer algo talvez passasse lá pra bater um lero com o prefeito nossa isso foi demais lero era do tempo do seu tataratataravô. Mas que ironia o vento levou um daqueles papéis direto pro seu rosto, retirou afobado com medo de germes invisíveis como eles faziam mal porém a mensagem que lá estava escrita era exatamente do que precisava nem que fosse encomendado sairia tão bem assim tratou de metê-lo logo no bolso e foi correndo o mais rápido que pôde precisa de um telefone sorte que tinha pagado a conta do seu. Subiu correndo as escadas do predinho de três andares em que morava quase tropeçou como aquela dona caquética que morreu semana passada bem feito pra ela. Abriu a porta do apartamento correndo nossa tinha esquecido quanta bagunça precisava arrumar odiava desordem. Tirou o casaco e começou a catar tudo o que estava espalhado. - Intermezzo: o papel cai do bolso direto no chão. - Tinha acabado mas de repente vê um pedaço de papel no chão que nojo devia ser um daqueles que a gente encontra no ponto de ônibus não pensou duas vezes jogou logo no lixo. De repente, sente algo estranho. Olha pela janela. A rua deserta. Feriado na metrópole.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Dia de chuva

Chovia. De onde estava, só era possível ver a chuva. Água e mais água e mais água caindo sem parar do céu. Ela sabia que não eram bem do céu, na verdade tudo aquilo vinha de insólitas nuvens, tão frágeis, tão informes, tão... esfumaçadas, é, meio óbvio, mas serve. Lembravam o quê mesmo? Ah, sim, algodão doce, claro, todo mundo fala isso, sempre. Uma vez comeu algodão doce num parque de diversão, desses bem vagabundos, que se instalam num terreno baldio qualquer da cidade e atraem um bando de gente pra andar na montanha-russa e no trem fantasma. Mas a atração principal não era esses brinquedinhos bobos: era o tal do Kamu..., Kame..., ou seria Kimu..., não, não, Kamikaze, é, aquele negócio que sobe e deixa todo mundo de ponta cabeça. Não gostava disso, uma vez vomitou e, argh!, como odiava vomitar! Aquela massa informe de comida mal digerida que sobe em velocidade recorde por sua garganta deixando um rastro de ácido clorídrico e que sai em jorros como uma verdadeira fonte de horror se espalhando rapidamente por todo o espaço disponível. É, bem desagradável, ninguém gosta, duvido que discordem. Entretanto... Será que não sentia um medo meio irracional? Medo não é bem a palavra certa. Melhor: será que não sentia uma repulsa meio irracional? Talvez pudesse estar relacionada àquelva vez em que se afogou com o próprio vômito, tinha quatro anos, que susto!, não desejava esse tipo de coisa nem a seu pior inimigo. E tudo graças ao seu adorável irmão, que tinha colocado maionese estragada no seu lanche. Não podia acontecer diferente, mal terminou de comer sentiu-se mal, tentou voltar correndo pra casa, mas escorregou, caiu de costas e pronto, o vômito inundou seus pulmões, causando um desespero meio..., bem melhor não lembrar certas coisas. Agora por que tinha escorregado? Pode ser que tenha pisado no cocô da cachorra. Contudo, ao revisitar o episódio com sua memória, não sentia cheiro, e tinha uma incrível capacidade de reter os odores de cada acontecimento, e por Deus como o excremento da Nina era fedido, beirava o insuportável! Então só podia ser uma coisa: estava chovendo. Na verdade era quase uma tempestade. Água e mais água e mais água caindo caindo caindo...

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Lembrança

Uma lágrima. Só isso. Toda uma vida concentrada naquela mísera gota salgada, resultado de complexas interações entre neurotransmissores de origem incerta e não sabida. Apenas uma lágrima. Fruto de um turbilhão de sentimentos os mais contraditórios possíveis, desencadeados pela simples visão de uma pétala de rosa. Se ainda fosse uma rosa inteira, magnífica em sua beleza rubra, se abrindo para o exterior cheia de graciosidade, vá lá, mas uma única pétala? Sim, exatamente isso. Afinal, não havia métafora melhor para representar anos e anos de afeto, dedicação e respeito que um dia lhe concedera, anos esses simplesmente ignorados em poucos dias, não mais. A pétala solta no meio de corriqueiros redemoinhos provocou verdadeira profusão de imagens em sua mente, sucedendo-se em lampejos repentinos e ofuscantes. Mas já não tinha superado?, diziam as amigas - e os amigos também, por que não?, ainda que teimem em dizer o contrário, existe sensibilidade na alma masculina. A resposta vinha-lhe como um trem desgovernado a subir por sua garganta, inundava sua boca com seu apito estridente, sinal de que queria sair o quanto antes possível. Contudo, selava firmemente os lábios, prendendo tal locomotiva em fúria, engolindo-a de volta e soltando, como se fosse um fiapo de fumaça, alguma de suas manjadas desculpas, sempre do tipo sim, eu tinha, é só que... Enfim, voltando à pétala inicial: quase já não podia vê-la, levada pelo vento, como todos sabem grande aliado do tempo, atuando como implacável desfazedor de registros. Claro que não foi diferente com aquele pobre pedaço de flor. Mas a lágrima continuava lá. Saindo das profundezas de glândulas entranhadas em certo orifícios oculares, tinha brotado de um cantinho do olho para depois escorrer lentamente pela face, como um riacho que aos poucos estabelece seu leito. Até que, passando através da suave elevação dos lábios, chegou ao queixo, de onde, num átimo, caiu ao chão. E secou. Não havia mais pétala. Não havia mais lágrima. Não havia mais nada.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Em defesa dos animais

Ele tinha uma certa quedinha por militâncias. Na juventude, combatera ardorosamente o regime militar, sem nem saber ao certo o que essas duas imponentes palavras representavam. Alguns anos mais tarde, para se manter coerente, virou metalúrgico e foi fazer greve junto daquele mundaréu de gente que se apinhava em frente a um palanque numa cidade qualquer dessa região cinzenta que é o ABC paulista. Deveria ter aproveitado melhor essa época para cortar acidentalmente um ou dois dedos e garantir uma aposentadoria para o resto da vida. Mas seu pensamento nunca fora muito audacioso, de modo que, nestes tempos pós-socialistas, neoliberais, ultracapitalistas ou o diabo que seja, encontrava-se em plena crise de meia-idade, sem dinheiro suficiente para manter um padrão de vida digno de classe B e sem motivo nenhum para combater. Podia ter ficado assim pra sempre e morrido melancolicamente, apagado da História pela dureza do esquecimento. Contudo, uma ideia brilhantemente iluminadora ocorreu-lhe enquanto assistia ao noticiário de uma quarta-feira perdida no tédio pelo qual vinha passando (e não poderia haver dia melhor para que tal coisa acontecesse, afina, convenhamos, por mais que certas propagandas de cerveja tenham tentado inverter a situação, não há dia mais paralisante que quarta-feira, essa coisa inerte jogada entre os demais dias da semana sem absolutamente nenhuma conotação a não ser a de dividi-los - tarefa que realiza muito mal, diga-se de passagem). A ideia era muito simples (como não a tivera antes!): iria lutar pelo direito dos animais. No começo, sentiu uma pontada no fundo do estômago, ao pensar nos deliciosos churrascos que deixariam de entrar por sua boca. Mas, pensando bem, ele não gostava mesmo de carne. Seu apego aos churrascos era mais ligado à presença dos amigos que à própria comida. Sim, definitivamente detestava qualquer tipo de carne! E a partir de então ele fez de tudo para salvar os pobres animaizinhos, desde as ações mais comuns, como participar de passeatas e tornar-se vegetariano, até as mais heterodoxas, como encher seu apartamento de bichos desprotegidos. Obviamente não há casamento que resista a tão fervorosa militância, de modo que numa noite sua mulher fez as malas e rumou para a Patagônia (?) para nunca mais ser vista. E a vida do homem continuou nessa mesma toada, e poderia ter terminado assim, não fosse seu filho morrer de câncer, razão pela qual ele ficou totalmente louco um tempo depois. Ora, você certamente pensou, a morte é algo meio forte, porém não o suficiente para abalar alguém de convicções tão fortes como esse cara aí. Calma, leitor. Explico-lhe já: o menino morreu porque seu pai proibiu que lhe fossem administrados os devidos remédios. O motivo para essa atitude irracional? Antes de chegar ao mercado, o coquetel fora testado em indefesos camundongos.

P.S.: créditos à Comvest (Unicamp), pelo gancho inconscientemente concedido através de uma das propostas de redação do vestibular 2009.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Corrida

Precisava correr. Não sabia por que. Nem pra quê. Ou melhor, até sabia, mas, no momento, essa informação fora confinada a um cantinho obscuro da vasta rede neuronal por nós conhecida como encéfalo. Sua mente funcionava assim: só conseguia se concentrar numa coisa por vez. Portanto, como agora a única coisa que importava era correr até o máximo que podia suportar, não pensava em mais nada além de enviar impulsos elétricos aos músculos da perna para que continuassem se movimentando. E assim percorria extensas avenidas, becos obscuros, ruas tranquilas de subúrbios, enfim, todos esses prazenteiros lugares encontrados em qualquer metrópole que se preze. Nosso relato podia acabar bem aqui, estendendo-se a corrida desse personagem desinteressante por um tempo indefinido. Mas (e lá vem a conjunção coordenativa adversativa, pra anular totalmente tudo o que se disse antes), só o fato de nos termos dado ao trabalho de construir esse relato evidencia que o final dessa história não foi tão simples assim. Num determinado momento, o sujeito parou de correr. Tinha um motivo pra isso, claro: ele acabara de perceber quão bonita era a paisagem ao seu redor. Como podia continuar correndo enquanto passava por magníficas lixeiras atulhadas até a boca dos mais poéticos detritos, enquanto ouvia o suave e instigante barulho do tráfego,  uma verdadeira sinfonia de buzinas e escapamentos, enquanto respirava aquele ar saturado de poluentes, em quantidade bem superior às 4000 e poucas substâncias tóxicas encontradas no cigarro? Sem contar naquele magnífico céu de inversão térmica, em que as cores da poluição superavam qualquer aurora boreal que um dia pudesse ver.E então decidiu parar e apreciar os lindos aspectos que permeavam sua existência cotidiana. Afinal, a vida é uma só, e tinha certeza de que em paraíso nenhum poderia encontrar semelhante conjuntura de singularidades como as que se lhe apresentavam naquela cidade. Estava a meditar sobre esses assuntos de profundidade inquestionável quando ouviu um estampido terrificante  e sentiu um impacto em sua nuca, logo seguido pela sensação do sangue quente escorrendo por suas costas. Foi aí que se lembrou de por que corria desabaladamente, de por que não devia parar de correr em momento algum (lembrança essa fatalmente olvidada, como bem se percebeu): estava fugindo da polícia.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Suicídio

Quando será que decidira se matar? Bem, pergunta difícil de responder. Não foi assim um insight, aquele tipo de iluminação com direito a trilha sonora e tudo. Mas também não foi resultado de um planejamento de longo prazo. Aliás, ele detestava planejamentos. Sua decisão ficava num meio termo entre esses dois extremos. A ideia vinha lhe visitando faz algum tempo. Como um pensamento meio passageiro, mas recorrente. Daqueles que a gente tem enquanto está na privada e não há nada para ler ou sofre com noites intermináveis de insônia. O motivo? Sinceramente, ele desconhecia. Quer dizer, podia selecionar qualquer um dos vários infortúnios por que passara em sua vidinha medíocre, desde os mais dramáticos (como matar acidentalmente o filho por tê-lo esquecido dentro do carro) até os mais fúteis (no caso, a barriguinha de chope, sempre incomodando). De qualquer forma, pelo que recordava, a certeza viera-lhe durante o banho, na noite anterior, no exato momento em que passava o sabonete por sua virilha esquerda. Depois de decidir, restava escolher o método. Nunca fora afeito a emoções muito fortes, por isso descartou logo se atirar pela janela do décimo andar, se enforcar, se afogar e outras coisas do gênero. Considerou tomar meia dúzia de comprimidos para dormir, mas aí poderia morrer no meio de um sono, ou até de um pesadelo, o que seria horrível sob qualquer ponto de vista. Se tivesse um revólver, atiraria em si mesmo, mas, como fica claro com o uso do subjuntivo, essa hipótese já nasceu impossibilitada de ocorrer. Por fim, resolveu tomar um restinho de veneno de rato, guardado num canto obscuro da despensa. Acordou bem cedo no dia de sua morte. Foi ao banheiro, tomou café, escovou os dentes. Colocou o veneno num copo com água e dirigiu-se ao seu quarto. Queria morrer bem ali, onde passara algumas das piores (e uma ou outra boa) horas da sua vida. O clima não podia ser mais bem apropriado.  Quando aproximou o copo da boca, ouviu a porta do apartamento se abrindo. Em seguida, passos cambaleantes. Era sua esposa. Desde a morte do filho, saía para beber todos os dias, e voltava cada vez mais deplorável. Ele esperou. Quem sabe ela não fizesse com que mudasse de opinião. Após alguns tropeços, seguidos de sonoros palavrões, ela entrou no quarto. Olhou para os olhos do marido. Ele sentia que alguma coisa sairia daquela boca, as palavras mágicas, transformadoras, palavras que ele esperara ouvir durante sua vida inteira, mas que nunca chegaram. Mesmo bêbada, ela entendeu mais ou menos o que estava acontecendo. E sentiu algo crescer dentro dela, algo que precisava pôr pra fora, que se debatia incontrolavelmente. A tensão chegou a níveis insuportáveis. Até que ela falou: "Seu desgraçado, você não pagou a fatura do cartão!" Bem, caro leitor, creio que você pode imaginar o que aconteceu depois.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Felicidade

Ela acordou especialmente feliz naquele dia, tomada por uma felicidade incrível, não do tipo que se experimenta quando se compra ou se come (em todos os sentidos possíveis) algo desejado. Era um tipo de felicidade que atuava como um divisor de águas, como se a vida dela antes daquele dia fosse um passado morto, enterrado e esquecido para todo o sempre amém. Ela se sentia mais que onipotente. Sim, porque muitas pessoas, quando arrebatadas por surtos de euforia, pensam poder se jogar de prédios ou na frente de automóveis que nada lhes acontece. Mas ela estava além disso. Sabia que não precisava fazer nada pra se convencer do quanto estava feliz. Era como se soubesse de um segredo crucial, como a origem da vida, e não quisesse partilhá-lo com ninguém, apenas desfrutar do conhecimento e deleitar-se com isso. Enfim, essa parca descrição dá uma leve ideia (reforma ortográfica já começou ¬¬) do que se passava na mente de uma jovem qualquer num dia de, vejamos... outono, sim, estação adequada. Agora, ela precisava descobrir a fonte dessa felicidade, para que não corresse o risco de perdê-la. E não foi muito difícil encontrá-la: ora, ela estava apaixonada. O que mais, além do amor, poderia provocar algo assim? Era inevitável que, após essa constatação, viesse uma segunda pergunta, tão ou mais importante que a primeira: por quem ela estava apaixonada? Bem, poder-se-ia ver seu sorriso zombeteiro, como a dizer  que importa, isso é o de menos. Ela apenas precisava sentir o amor pulsar em suas artérias, deslizar por sua pele como amarras de seda, que nos seduzem ao mesmo tempo que nos prendem. Estava decidido. A partir daquele dia, estava apaixonada, e isso lhe deixava muito feliz, e não ligaria para mais nada além disso. Ponto. Tinha resolvido. Ah, que sensação boa essa de abandonar-se ao sentimento sem nenhuma preocupação, de ser preenchida por ele sem sentir remorso ou até mesmo medo! Seria realmente maravihoso se tudo acabasse com essa frase, com um típico final feliz. Mas não. No dia seguinte, encontraram-na morta, pendurada por uma corda em seu quarto. O motivo do suicídio? É óbvio que os policiais ou outras pessoas que a viram não têm a mínima noção do que seja, afinal eles não são dotados da capacidade de perscrutar o mais íntimo refúgio da mente das pessoas, mas não deixarei meu caro leitor na mão, já que me foi dado conhecer a triste história dessa garota: ela engordara dois quilos desde a última vez que se pesara.

P.S.: Porque a loucura tem muitas faces, resta descobrir qual delas trazemos conosco.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Apenas um beijo

Ela estava tão feliz! Tinha esperado semanas, meses, até mesmo anos para aquele momento. Nunca pensara que um dia ele finalmente olharia pra ela, a menina tímida de óculos e cabelos crespos sentada na segunda carteira da fileira do meio. É, tudo bem que agora ela tinha feito escova progressiva, algumas luzes e usava lentes de contato, mas ainda assim achava-se pouco frente à beleza fenomenal dele. Deus grego? Não, muito mais que isso. A começar pelos olhos azuis amendoados, que contra a luz adquiriam um leve brilho verde. Depois aquele corpo, másculo e suave, como se fosse esculpido pelas mãos de um Michelangelo. Ah, ia se esquecendo da boca, emoldurada por lábios carnudos, um convite irrestível à volúpia. E os cabelos, eternamente despenteados, loiro-acastanhados, cortados bem curtos. Enfim, tudo nele fazia com que seu coração acelerasse, seus olhos brilhassem, sua respiração ficasse ofegante. Tanto que quase teve um infarto fulminante ao receber aquele telefonema. Pra dizer a verdade, estava até irritada naquele dia, depois de penar com o trânsito horrível e com as grosserias de seu adorável chefe. Disse alô um tanto brusca, mas quando ouviu sua voz de veludo tudo mudou, chegou mesmo a perder a fala. E quando ele fez o convite, então... Podia ouvi-lo dizer encontre-me amanhã à noite no parque do..., preciso muito te beijar. E desligou o telefone. Ela chegou antes do fim do pôr-do-sol. Deleitava-se com a espera. Imaginava ardentemente ele chegando, aproximando-se dela, meu Deus quanta alegria! Às oito e trinta e cinco ele desceu do seu carro e caminhou até ela. Olhou-a nos olhos. Foi levando sua cabeça bem perto da dela, até seus lábios roçarem-se de leve, como se estivessem tímidos ou receosos. Depois, ele abriu sua boca devagar e deixou sua língua encontrar-se com a dela, numa brincadeira travessa de esconde-esconde. Explorou as bochechas, o palato, todas as reentrâncias com as quais entrava em contato através daquele beijo. Era indescritível o sentimento que ela experimentava. Gozo maior não poderia haver. Não existia passado nem futuro, sua vida era o presente, ali, com ele. Nossa, que sensação maravilhosa sentia! Estava tonta de tanto prazer! Inundava-lhe um gosto estranho, sublime, era o seu corpo entrando na ebulição apaixonada que sua mente já desfrutava há muito tempo. Ela enfim desfaleceu. Ele afastou-se lentamente. Retirou o punhal do ventre dela. Limpou o sangue em sua roupa e foi embora. O corpo ficou caído, com o último sorriso petrificado para sempre.

P.S.: "Mas o covarde mata com um beijo" - Mal Secreto.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Um conto de Natal

O Natal estava próximo. Mas ele não tinha absolutamente um espírito natalino naquele momento. Por quê? Olha, se ele quisesse, podia contar as mais comoventes e drmáticas histórias que um ser humano pode vivenciar, afinal ele era escritor, imaginação não lhe faltava. Só que ele preferia ser sincero: não tinha nenhum motivo aparente pra estar naquele baixo astral em pleno dezembrão. Apenas sentia o vazio dentro de si. Um vazio tremendo, gigantesco mesmo, mas também impenetrável. Não adiantava fuçar de quem era a culpa. Nenhum trauma de infância, nenhum problema no emprego, e de forma alguma impotência sexual. Também não se sentia vítima do consumismo desenfreado. Ele se adaptava muito bem a esse estilo de vida. Dava graças a Deus por ser desprovido de preconceitos moralizantes, como ele costumava tachar essa dificuldade que as pessoas têm de aceitar as imposições do titio Capitalismo. Enfim, padecia de um mal sem causa, que o levara até a praça central da cidade, onde agora se encontrava. Estava bem diante da fonte, cuja iluminação fora inaugurada recentemente. A água subia vermelha, ou melhor, brilhantemente vermelha, a cor escolhida para representar o entusiasmo natalino que se alastrava por todo o planeta. Quem dera ele pudesse fazer parte dessa multidão que se encantava com algo tão singelo como a fonte, em seu eterno circular de água iluminada. Olhou o relógio. Já era tarde. Precisava voltar pra casa. Não que sua mulher fosse ciumenta. Mas ele precisava dormir, um novo dia de trabalho aguardava-o amanhã.  Deu uma última olhada na fonte. Virou-se. Colocou a mão no bolso para pegar as chaves do carro. Sentiu um baque na cabeça. Caiu. Quando acordou, estava num lugar semelhante a um porão rochoso, muito úmido. Encontrava-se sentado numa cadeira reclinável, dessas que se encontram facilmente em consultórios de dentistas. Sentia uma leve ardência no braço direito. Olhou e percebeu que havia um agulha enfiada nele, conectada a uma mangueira, por onde seu sangue escoava. Quando deu-se conta onde essa mangueira dava, gritou. Gritou forte. Alto. Berrou mesmo. Estava horrorizado. Ninguém apareceu para lhe ajudar. Então era isso? Assim que tudo aquilo acabaria? Não queria acreditar, mas sabia no seu íntimo que não havia escapatória. Afinal, a água da fonte tinha de continuar vermelha.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Esquizofrenia

Ele era esquizofrênico. Tinha certeza disso. Motivos não faltavam: há mais de um mês ele pensava estar sendo perseguido por todo lugar aonde ia. Chegava a ver o rosto de homens mal encarados, portando revólveres ameaçadores, apontados sempre em sua direção. O mais interessante, porém, era ele ter plena consciência disso, pois mania de perseguição é o que mais ocorre com a maioria dos pacientes acometidos de esquizofrenia. Agora, reconhecer a doença era algo surpreendente. E, além disso, ele se dispôs a ir a um psiquiatra procurar tratamento. Reconhecia que representava um perigo para seus familiares e amigos, afinal nunca se sabe quando se vai perder o controle. O médico ficou espantadíssimo ao ver e ouvir aquele rapaz, ainda jovem, entrar pelo seu consultório decididamente e dizer doutor, tenho esquizofrenia. Nunca a literatura médica registrou um caso de paranóia no qual o paciente a reconhecesse como tal. O psiquiatra vislumbrou inclusive uma possibilidade de faturar algum título, quem sabe até internacional, e pôs-se a discorrer sobre as possíveis explicações para aquele caso, provavelmente o lobo antero-lateral direito do córtex pré-frontal apresentava neurônios preservados da patologia devido à ação de neurotransmissores etc etc etc. Enfim ambos decidiram-se pela internação do doente. Ele tratou de, no dia seguinte, procurar o melhor sanatório da cidade e dar a entrada o quanto antes. O lugar era confortável, o mínimo que se esperaria frente à fortuna que era a mensalidade. Assim que chegou, foi medicado, mas continuava a se queixar de alucinações. Seguiu para o quarto. Algumas alucinações eram até engraçadas, bem doidas mesmo. Que importa, agora ele estava seguro, sua família também, podia relaxar e aproveitar sua estada. De madrugada, acordou sobressaltado. Ouvira ruídos de arrombamento. Ficou de pé. O remédio estava demorando pra fazer efeito. De repente, viu um vulto. Não teve tempo nem de gritar. A bala entrou silenciosamente por seu crânio, pondo um fim à sua vida. O algoz saiu com cuidado pela janela. Só fizera seu trabalho. Quem mandou não pagar as ampolas de LSD...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Psicologia

A psicologia é uma coisa até interessante. Tanto que levou-a a cursar a faculdade. E que faculdade! Por que a exclamação? Você acha que é uma referência aos bons professores, às boas instalações etc etc etc? Não. Quando se está na faculdade, uma só coisa realmente importa: festar. Muito. E ela se lembrava de cada uma daquelas festas. Inclusive tinha a daquele dia à tarde, todo mundo se beijando ao ar livre e [trecho censurado para menores de 18 anos, e sendo o autor menor, sinto muito, vão ter de se contentar em saber só isso], mas, enfim, agora estava lá no consultório, ouvindo um cara. Que, por sinal, não parava de falar. O saco dessa profissão é isso: o povo gosta de falar. Essa, aliás, deve ser a atividade de que o ser humano mais gosta (depois do sexo, talvez, mas só em alguns casos). Basta observar qualquer reunião de pessoas. A conversa sempre prevalece. Não importa se aquele p.h.D em gestão empresarial de banheiros está falando, sempre alguém vai virar do lado e perguntar e aí, como foi o churrasco, a carne tava boa, e daqui a pouco nosso ilustre palestrante vai se ver falando apenas para a tia solteirona que está a fim dele. Mas voltando ao consultório, ela percebia que a boca de seu paciente se mexia sem parar. Obviamente, não ouvia nada. Naquele momento, seu cérebro concentrava-se em analisar as cortinas, será que não devia trocá-las, com um fundo musical de Ivete. De repente, o homem fechou a boca. Ela percebeu e, fazendo-se de desentendida, perguntou desculpe, mas você quer o quê, passando a impressão de que o pobre coitado pedira algo absurdo. E ele respondeu, quero que me diga o motivo para eu estar fazendo terapia. Putz! Aì ferrou legal. Esse era o tipo de paciente que faz um joguinho de gato e rato, incitando o psicólogo a descobrir o problema e solucioná-lo antes que ocorra um suicídio. Ela pediu-lhe que voltasse amanhã, pois o horário já tinha acabado. Despediram-se, e ela ficou lá. Seus colegas tinham comentado de casos parecidos, que acabaram tragicamente. Mas ela estava disposta a lutar. Passou a noite inteira lendo os livros da faculdade, engolindo-os quase. Se fosse Freud, diria que tinha alguma coisa a ver com a mãe, mas ela sentia algo além disso. Finalmente, o dia seguinte chegou. O paciente bateu na porta, ela abriu. Sentaram-se. Solenemente, ela ergueu a cabeça e disse: "Você faz terapia porque (tchan tchan tchan) eu preciso ganhar dinheiro".

P.S.: L'argent, toujours l'argent... (não entendeu põe no tradutor XD).

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Homenagem aos românticos

Vivia numa metrópole. Qual? Não importa. Todas são iguais em sua agitação cinza-pálido, modorrento, que nos engole num ciclone de fumaça e poeira. E ele observava isso pela sua janela. Olhava a rua, cortada por carros. Velozes. Eles transmitiam perfeitamente o sentimento que trazia dentro do peito: uma convulsão vulcânica, espirrando os incandescentes destroços de um coração partido. Não, não ocorrera nenhuma traição. Muito menos a morte dela. Pelo contrário. A vivacidade rubra do sangue arterial permanecia viva em sua cálida face. O problema era justamente aquela imposição ridícula, resquícios de um patriarcalismo rude e preconceituoso! Afinal, de que importava se ele não tinha dinheiro, o amor bastava, é o alimento perene da alma, que supera todas as vis necessidades materiais de uma sociedade corrompidamente burguesa. Além do mais ele era jovem, via despontar a aurora de sua vida, época em que as paixões inquietam o corpo, fazendo-o verdadeiro refém, impotente, frágil. Olhou novamente a rua lá fora. Descansou as pálpebras. Imaginou-se no cimo de um penhasco sobre o mar revolto, as ondas chocando-se violentamente contra a rocha. Um cenário de fazer inveja ao pobre Werther, que teve de se contentar em morrer no próprio quarto. Deixou os ruídos dos escapamentos entrarem por seus ouvidos, infectarem seu cérebro. Estava decidido e nada poderia convencê-lo a desisitir de seu intento. Já que não podia derrubar o opressivo sistema que esmagava seu amor por ela, entregava-se inteiramente às incertezas da morte, solução a mais tranqüilizadora que podia vislumbrar. Sentiu o ácido odor sulfúrico que os automóveis emitiam em sua direção.Fazia isso por amor a ela. Queria gritar para que todos soubessem. Era sua homenagem final. Dedicava-lhe o último suspiro, assim como lhe dedicara cada segundo de seus dias, apenas pensando em sua magnífica beleza. Contou até três. E jogou-se pela janela. Sem olhar para trás. Sem hesitar.Felizmente o térreo não fica tão longe do solo.

P.S.: O "românticos" do título refere-se aos escritores do Romantismo, escola literária de fins do século XVIII a meados do XIX.
P.P.S.: Alzira forever!!! XD

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Sobre pais e filhos

Seria um vício? Não, essa definição não caberia. Vício é algo recorrente. E ele, até agora, não tinha feito nada. Tudo permanecia no plano espiritual, o qual, desde que foi inventado por Platão, é o eterno refúgio das idéias etéreas. Enfim, ele desejava. Quase não conseguia se controlar. Por isso ficava quase exausto toda vez que se via naquela situação tentadora, digamos assim. E antes que vocês perguntam "Mas por que o cara não faz logo o que quer?", lhes digo: sua tentação era horrenda. Muito repulsiva. Vocês com certeza seriam incapazes de suportar a simples idéia do que ele ansiava por realizar. Falando de coisas mais úteis, ele era casado há uns 20 e poucos anos, trabalhava, comia, dormia. Em síntese, poder-se-ia dizer tratar-se de uma pessoa normal. Daquelas que você sempre cumprimenta quando a vê andando na rua ou almoçando no shopping. Mas, se ele fosse absolutamente normal, não haveria motivos para escrever sobre ele. Afinal, pessoas normais existem aos milhares. Se você quiser encontrar uma, ande uns dois quarteirões. Ou então olhe-se no espelho. E aí voltamos pra questão que faz esse homem estar presente neste post. O desejo maldito. Ele tinha um filho. Dez anos. A idade em que o mundo começa a ser descoberto. Toda vez que ele via o menino, sentia um arrepio na espinha. Seu coração palpitava. Era o desejo incontrolável. A sede insaciável. Um ardor terrificante. Não suportava mais conviver com isso. Como uma criança poderia lhe provocar sentimento tão ardente? Até então se controlara. Porém sabia que seu limite havia chegado. Mesmo que quisesse resistir, faltavam-lhe forças para tanto. Olhou para seu filho. Aquele pele tenra, macia, últimos resquícios de uma infância se despedindo. Sua face corada. Meu Deus, que inferno! Por quê? Por que precisava fazer aquilo? Nunca fizeram isso com ele antes. Aproximou-se do garoto. Enfim disse: "FIlho, eu te amo."

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Lixo

Jogar alguma coisa fora já exige, por si só, grande força de vontade. Por mais inútil que seja o objeto, sempre fica aquela duvidazinha, do tipo e se eu sentir falta desse troço tão fofinho, será que não entro em depressão? E com ela não aconteceu diferente. Desde criança tinha trauma de desapegar-se das coisas. Nunca se esquecera daquele episódio com a bonequinha do seu quinto aniversário. Sempre gostara dela, até que, num belo dia... Bem, tenho certeza de que é uma história super comovente, de arrancar lágrimas dos corações mais insensíveis, mas ela não vem ao caso. Quem sabe uma outra hora. A questão é que a moça estava diante da lata de lixo (num beco qualquer, pra variar) decidindo-se sobre o destino daquilo em suas mãos. Não que fosse algo essencialmente essencial. Poderia muito bem viver sem isso. Porém, já tinha criado um vínculo afetivo com o que segurava. Quase chegara a amá-lo. É, pode parecer coisa de melodrama mexicano. E, no fundo, acaba sendo mesmo. Já estava lá há quatro horas. Incrível como alguém consegue passar esse tempo todo em pé, num lugar totalmente obscuro, e ainda por cima de noite (esqueci-me de comentar esse detalhe). Sentia que, não importava o quanto pensasse, nunca conseguiria se decidir. Afinal, tinha uma história com aquilo. Bem profunda até. Conviveram juntos durante um tempo razoável, partilharam das mesmas emoções, eram cúmplices. Será que agiria corretamente pondo um fim nisso desse jeito? Um vento soprou. Forte. E gelado. Com o uivo característico dos ventos fortes e gelados (dos quais ela, particularmente, não gostava). Interpretou com um sinal de que devia decidir. Fechou os olhos, respirou fundo. Visualizou em sua mente o que trazia firme entre seus dedos. Que começavam a formigar, tamanha era a intensidade com que os apertava. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Enfim, ergueu a tampa da lixeira e jogou lá dentro o feto abortado.