domingo, 12 de outubro de 2008

Elevador

Era o Sr. D. Sempre fora referido por pronomes de tratamento, infames pronomes que nos despersonalizam. Bom dia, Sr. D. Boa tarde, Sr. D. Como vai a esposa, Sr. D.? Ele passava cada minuto odiando tudo isso. Justamente por causa da imensa superficialidade que permeava suas relaçõas. Nem o casamento escapava. Sabia muito bem que sua mulher se unira a um sobrenome e a uma conta corrente. Já tinha se cansado. A morte? Não, era covarde demais pra ela. Sim, podem chamá-lo de bundão. Literalmente até. Pesava, por baixo, uns 120 quilos. Em resumo, vivia pateticamente, falava pateticamente, vestia-se pateticamente e não fazia sexo desde sua lua-de-mel (o que já seria suficiente pra levar alguém à loucura, mas o Sr. D. refugiava-se nas latas de sardinha - gosto não se discute...). Sei que você já deve estar farto de ler tanta coisa inútil. Cansa mesmo. Por incrível que pareça, porém, nem tudo na vida do Sr. D. era uma hemorróida irremediável. Ele possuía um local secreto, mágico, onde podia libertar-se e ser o que quisesse: o elevador privativo, que ficava em sua sala, no último andar do prédio no qual estava instalada sua empresa (cujos negócios eram absolutamente sem graça, se não me engano comércio internacional de palitos de fósforo). Quando entrava no elevador, o homem  se transformava, dava vazão aos sentimentos mais íntimos de seu coração, realizava fantasias impublicáveis. Inclusive, um dia desses, chegou a..., não, melhor não dizer. Eram esses breves instantes que lhe davam forças pra viver. No elevador, criava o seu mundo. Apenas ele e o espelho. E isso bastava. Mais até: chegava a ser perfeito! Coitado. Esquecera-se do circuito interno de vigilância.

sábado, 4 de outubro de 2008

Tango

Ao som do tango, dançava. Ele bem grudado ao seu corpo. Rodopios frenéticos acompanhados por olhares provocadores. Rosas ao redor. A única luz do ambiente vinha por meio das velas, que espalhavam languidamente suas chamas. A música seguia num crescendo contínuo. Os movimentos atingiam seu auge. Sua alma extasiava-se. Sempre gostara de tango. Chegou a fazer algumas aulas, mas por motivos técnicos (leia-se falta de dinheiro) foi obrigada a abandoná-las. Mas isso não tinha importância alguma. Ele a guiava tão bem! De repente o salão ficou demasiadamente pequeno para eles. Precisavam de mais, cada vez mais. O tango exerce esse poder. Inflama paixões. Atinge os corações mais inatingíveis. Desperta desejos. Voluptuosamente. Exacerba a sensualidade. Os amores tornam-se incontroláveis. Impossível resistir. Por mais que ela quisesse, por mais que ela tentasse... Seus lábios fundiam-se numa conexão impenetrável, seus corpos formavam um único organismo, pulsante, ardente, frenético. O ritmo da música integrara-se ao ritmo de seu sangue, tudo era uma mesma coisa, o mundo resumia-se àquilo. Mas ainda precisavam de mais, cada vez mais. Viu-se nua ao lado dele. Onde? Quando? Não sabia, não queria saber. Sentia apenas seus corpos, juntos, para sempre. Era isso que sempre tinha pedido aos céus. Nem que fosse por só uma noite. Estavam cada vez mais entrosados, aproximando-se do ápice daquele louco e delicioso amor. Do nada vem um clarão. Tudo some. Ouve berros. O que está acontecendo? Cadê ele? Cadê a música? Pisca com força. Ao seu lado, um policial. Nossa, como está frio! Olha para frente. Agarrava um poste com força. Sua roupa no chão. Tudo não passara de atentado violento ao pudor.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Fluxo

Delírio, um delírio delirantemente delirante, tudo era vermelho, tudo era rosa, tudo era todas as cores juntas, numa única sinfonia policromática, pancromática, brilhos, luzes ofuscantes, era o canto de roxos rouxinóis que se esgarçavam entre gigantes girassóis, a magia do mundo, a máquina da vida, tudo podia, tudo queria, tudo fazia, o limite da realidade era o sonho, pefumes de todos os tipos, odores, sabores, chocolates com pimentas, sejam malaguetas ou do reino, o que importa é sentir, expandir os sentidos, explorar, extrapolar além do extrapolável, gritar, existir não é nada senão berrar, liberar o ar dos pulmões, crescer, ocupar o espaço todo, nada é maior, nada vence, é isso, domínio, força, poder, muito poder! Pausa... Alegres pradarias transformadas em desfigurados pântanos, onde impera ácido sulfídrico, cianídrico, clorídrico, dor, insuportável, inimaginável, retorce, corrói, desmancha, como é possível, apertos, pedaços arrancados, tudo era um imenso aspirador, a vida sugada, destroçada, reduzida ao pó, nossa incerta origem mas com certeza nosso fim, a magnitude da podridão hepática, pancreática, visceral como um todo, repulsa, nojo, sangue, encefalites, bronquites, artroses, escleroses, ites e oses num pas-de-deux infernal, sem fim, que sufoca e asfixia, deixando apenas a sordidez de monóxidos, dióxidos, multióxidos, todos letais, todos aterradores, que matam e matam e matam. Pausa... Cinza, bege, tons pastéis, nada a fazer, tudo é igual, pra que sorrir, pra que chorar, pra que viver, vou-me indo, perco-me no meio de sedimentos de uma foz em delta, sumo, para nunca mais voltar. Era apenas mais um coração. Apaixonado. Que se foi.

P.S.: "Deixa a doidera bater ..." uashsuahasuh

domingo, 21 de setembro de 2008

Homenagem aos árcades

Relva macia. De um verde brilhante. E luz. Muita luz. Nessas ocasiões, é impressionante como o Sol aparece do nada e graciosamente oferece toda a sua luminosidade. Tiravam uma sesta embaixo do velho carvalho, daqueles repleto de histórias seculares que tanto nos encantam. Ele, abraçando sua linda esposa, de matar de inveja qualquer Marília, contemplava tudo o que tinham. O cenário maravilhoso. O filho, que brincava alegre com as ovelhas. Sim, pois esses animais não podiam faltar numa paisagem tão bucólica como a que pretendia ter. Naquele instante, longe da cidade, longe de todo o estresse, sentia-se um verdadeiro pastor, vocação para a qual a alma humana é naturalmente direcionada. (Pena que não rendesse tanto quanto aplicar em ações, mas enfim, nem tudo é perfeito...). O perfume das flores primaveris inundava-lhe a face, trazendo consigo um sopro de vida sem igual. Acariciou os cachos dourados de sua esposa. Olhou para o filho, que deixara as ovelhinhas para se divertir com uma borboleta. Realmente, não havia felicidade maior. Ao longe, o Sol começava a acanhar-se, descendo suavemente por sob a linha do horizonte. Era esse o momento em que Amor, solto pelos ares, começava a disparar suas setas, envenenadas com o néctar dos deuses, esse que é o sentimento mais profundo e reconfortante. A família precisava retornar para sua rotina. A única coisa que lhes dava forças era saber que, no próximo fim de semana, estariam nesse mesmo local, com algo ainda melhor: uma harpa que o pai mandara fazer. Este recolheu tudo, acordou a mãe, chamou o filho e voltaram pra conturbada urbe, para o seu áureo mas nem um pouco medíocre apartamento tríplex. A mulher, exausta, foi para seu quarto repousar. O homem, por sua vez, acompanhou o filho a uma espécie de sótão, trancou a porta e disse: "Tira a roupa que nós vamos fazer um filme bem legal. Será nosso segredinho, tá?"

P.S.: Créditos à Alzira (XD) e, mais uma vez, a Efeito Borboleta.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Retrato

É difícil descrever uma pessoa como essa. Mas aceito o desafio. Acima de tudo, ressalta nela a insegurança. Nunca sabe o que quer, faz, na maioria das vezes, coisas contraditórias, às vezes totalmente antagônicas. Sua vida, aliás, assemelha-se a um paradoxo. Parece que não caminha. Máscaras tem infinitas. Freqüentemente se perde no meio delas. Deixa-se levar pela fluidez do momento, sempre sorrindo, sempre agradável, porém, no fundo, defende apenas seus próprios interesses. Compaixão inexiste quando sua situação é posta, mesmo que minimamente, em risco. Em suma, constrói sua vida com mentiras e mais mentiras. Inclusive pra esconder seus vícios. Afinal, o que não se faz entre quatro paredes... O pior não é isso: ainda critica aqueles com os mesmos defeitos ou até menores. Sim, já chegou a esse ponto. Percebe-se quão frágil é a pessoa de quem eu falo, por mais duras e intransponíveis que parecem ser suas defesas. No fundo, não passa de uma criança que acabou de largar o peito materno. Perdida. Por completo. Se tem algo de bom? Creio que sim. Tudo tem um ying e um yang. Acontece que é muito desorientada, confusa, e acaba desvalorizando ou então anulando suas realizações construtivas. Paciência. Precisa-se de paciência para compreendê-la. Lembre-se, é um ser humano, esse animalzinho metido a besta que se acha superpoderoso mas não pode nada. Suponho que, a esta altura, o leitor esteja interessado em saber a identidade de tão peculiar pessoa. Pois lhe digo: essa pessoa é você.

P.S.: Peço a compreensão de vocês, pois tudo não passa de um recurso fictício, por isso não fiquem zangados. XD

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Triste fim de um alegre começo

Contrai. Relaxa. No ritmo. Rápido. Sem tempo. Respira. Solta. Dor. Meu Deus, será que isso não tem fim? Lembrava-se do dia em que se conheceram, o jantar maravilhoso no restaurante francês, o som dos violinos enchendo sua cabeça... Sangue. Correndo. Frenético. Sangue. Suor. Sem lágrimas. Sem cerveja. Poros dilatados. Gritos. Berros. Estrondos. Não vou aguentar! Depois, a primeira noite juntos, na praia, a lua cheia, o brilho bruxuleante do que restara da fogueira, o toque dos corpos, sua respiração quente a inundar-lhe o rosto... Mas tudo sumiu. Foi-se. Acabou. Agora só há dor. Muita dor. Lancinante. Por que tinha de passar por isso sozinha? Sal. Na boca. O suor escorrendo em rios. Batidas frenéticas. Coração enlouquecendo. Tudo negro. Só mais um pouco, por favor, preciso resistir. Depois, o abandono, a angústia, o sofrimento, a vergonha perante a família, aquele canalha sumiu do nada, como pode, parecia a pessoa adequada, a mais certa que conhecera... Contrai, relaxa, contrai, relaxa. Artérias pulsando. Rasgos. Os músculos fatigados. Urros de dor. A conseqüência de sua atitude inconseqüente estava aí: sozinha, num quarto, passando por isso, sonhara tudo diferente, o enxoval, a presença dele... Estouro. Internamente um estouro. Depois, relaxamento. Acabou. Ela olha a criança. Os dois únicos seres vivos num raio de muitos quilômetros. Isolados no quarto escuro. Aí estava o maldito fruto de seu ventre. Majestosamente anencéfalo. Sem rosto. Sem vida. Sem nada.

sábado, 13 de setembro de 2008

Tempo . . .

Olhava fixamente um ponto. Não sabia qual. Aliás, não tinha a menor idéia de por que estava ali. Fato totalmente justificável frente ao terrível acontecimento pelo qual acabara de passar. Terrível, não. Traumatizante. Aterrorizante. Destruidor. Tudo o que mais queria, naquele momento, era a morte. Implorara por ela. Mas o destino, impiedosamente, não a trouxera. Por isso continuava lá. Sem nada para preencher seu vazio. Se ao menos pudesse voltar no tempo, evitar aquele instante crucial, aqueles parcos segundos que mudaram completamente sua existência. Só pedia mais uma chance. Será que era demais? Afinal, o que fizera para merecer tudo isso? Não podia, não queria acreditar em tamanha injustiça. O ponto à sua frente começou a piscar. O que estava acontecendo? Decerto, pra completar, ia desmaiar, ter um ataque, qualquer coisa do gênero. Tudo tremia freneticamente. Aí veio a luz. Forte. Estupenda. E então deixou-se levar. Mesmo porque não tinha força alguma para resistir. De repente, sentiu um baque. Estava novamente na fatídica sala. Todos conversavam. Alegremente. Não tinham idéia do que ia acontecer. Mas dessa vez não deixaria. Voltara ali justamente com essa finalidade. Caminhou para o canto, como se fosse invísivel. E deslocou aquela maldita mesa. Pronto. Sentiu um alívio. O peso da culpa sumiu. Ah, como estava feliz! Nada de ruim ia acontecer. Caminhou para a porta. Ouviu um estrondo. Clarão. Gritos. Poeira. Sangue. Tudo aconteceu exatamente como antes.

P.S.: Sob efeito borboleta.