quarta-feira, 8 de julho de 2009

Lembrança

Uma lágrima. Só isso. Toda uma vida concentrada naquela mísera gota salgada, resultado de complexas interações entre neurotransmissores de origem incerta e não sabida. Apenas uma lágrima. Fruto de um turbilhão de sentimentos os mais contraditórios possíveis, desencadeados pela simples visão de uma pétala de rosa. Se ainda fosse uma rosa inteira, magnífica em sua beleza rubra, se abrindo para o exterior cheia de graciosidade, vá lá, mas uma única pétala? Sim, exatamente isso. Afinal, não havia métafora melhor para representar anos e anos de afeto, dedicação e respeito que um dia lhe concedera, anos esses simplesmente ignorados em poucos dias, não mais. A pétala solta no meio de corriqueiros redemoinhos provocou verdadeira profusão de imagens em sua mente, sucedendo-se em lampejos repentinos e ofuscantes. Mas já não tinha superado?, diziam as amigas - e os amigos também, por que não?, ainda que teimem em dizer o contrário, existe sensibilidade na alma masculina. A resposta vinha-lhe como um trem desgovernado a subir por sua garganta, inundava sua boca com seu apito estridente, sinal de que queria sair o quanto antes possível. Contudo, selava firmemente os lábios, prendendo tal locomotiva em fúria, engolindo-a de volta e soltando, como se fosse um fiapo de fumaça, alguma de suas manjadas desculpas, sempre do tipo sim, eu tinha, é só que... Enfim, voltando à pétala inicial: quase já não podia vê-la, levada pelo vento, como todos sabem grande aliado do tempo, atuando como implacável desfazedor de registros. Claro que não foi diferente com aquele pobre pedaço de flor. Mas a lágrima continuava lá. Saindo das profundezas de glândulas entranhadas em certo orifícios oculares, tinha brotado de um cantinho do olho para depois escorrer lentamente pela face, como um riacho que aos poucos estabelece seu leito. Até que, passando através da suave elevação dos lábios, chegou ao queixo, de onde, num átimo, caiu ao chão. E secou. Não havia mais pétala. Não havia mais lágrima. Não havia mais nada.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Em defesa dos animais

Ele tinha uma certa quedinha por militâncias. Na juventude, combatera ardorosamente o regime militar, sem nem saber ao certo o que essas duas imponentes palavras representavam. Alguns anos mais tarde, para se manter coerente, virou metalúrgico e foi fazer greve junto daquele mundaréu de gente que se apinhava em frente a um palanque numa cidade qualquer dessa região cinzenta que é o ABC paulista. Deveria ter aproveitado melhor essa época para cortar acidentalmente um ou dois dedos e garantir uma aposentadoria para o resto da vida. Mas seu pensamento nunca fora muito audacioso, de modo que, nestes tempos pós-socialistas, neoliberais, ultracapitalistas ou o diabo que seja, encontrava-se em plena crise de meia-idade, sem dinheiro suficiente para manter um padrão de vida digno de classe B e sem motivo nenhum para combater. Podia ter ficado assim pra sempre e morrido melancolicamente, apagado da História pela dureza do esquecimento. Contudo, uma ideia brilhantemente iluminadora ocorreu-lhe enquanto assistia ao noticiário de uma quarta-feira perdida no tédio pelo qual vinha passando (e não poderia haver dia melhor para que tal coisa acontecesse, afina, convenhamos, por mais que certas propagandas de cerveja tenham tentado inverter a situação, não há dia mais paralisante que quarta-feira, essa coisa inerte jogada entre os demais dias da semana sem absolutamente nenhuma conotação a não ser a de dividi-los - tarefa que realiza muito mal, diga-se de passagem). A ideia era muito simples (como não a tivera antes!): iria lutar pelo direito dos animais. No começo, sentiu uma pontada no fundo do estômago, ao pensar nos deliciosos churrascos que deixariam de entrar por sua boca. Mas, pensando bem, ele não gostava mesmo de carne. Seu apego aos churrascos era mais ligado à presença dos amigos que à própria comida. Sim, definitivamente detestava qualquer tipo de carne! E a partir de então ele fez de tudo para salvar os pobres animaizinhos, desde as ações mais comuns, como participar de passeatas e tornar-se vegetariano, até as mais heterodoxas, como encher seu apartamento de bichos desprotegidos. Obviamente não há casamento que resista a tão fervorosa militância, de modo que numa noite sua mulher fez as malas e rumou para a Patagônia (?) para nunca mais ser vista. E a vida do homem continuou nessa mesma toada, e poderia ter terminado assim, não fosse seu filho morrer de câncer, razão pela qual ele ficou totalmente louco um tempo depois. Ora, você certamente pensou, a morte é algo meio forte, porém não o suficiente para abalar alguém de convicções tão fortes como esse cara aí. Calma, leitor. Explico-lhe já: o menino morreu porque seu pai proibiu que lhe fossem administrados os devidos remédios. O motivo para essa atitude irracional? Antes de chegar ao mercado, o coquetel fora testado em indefesos camundongos.

P.S.: créditos à Comvest (Unicamp), pelo gancho inconscientemente concedido através de uma das propostas de redação do vestibular 2009.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Corrida

Precisava correr. Não sabia por que. Nem pra quê. Ou melhor, até sabia, mas, no momento, essa informação fora confinada a um cantinho obscuro da vasta rede neuronal por nós conhecida como encéfalo. Sua mente funcionava assim: só conseguia se concentrar numa coisa por vez. Portanto, como agora a única coisa que importava era correr até o máximo que podia suportar, não pensava em mais nada além de enviar impulsos elétricos aos músculos da perna para que continuassem se movimentando. E assim percorria extensas avenidas, becos obscuros, ruas tranquilas de subúrbios, enfim, todos esses prazenteiros lugares encontrados em qualquer metrópole que se preze. Nosso relato podia acabar bem aqui, estendendo-se a corrida desse personagem desinteressante por um tempo indefinido. Mas (e lá vem a conjunção coordenativa adversativa, pra anular totalmente tudo o que se disse antes), só o fato de nos termos dado ao trabalho de construir esse relato evidencia que o final dessa história não foi tão simples assim. Num determinado momento, o sujeito parou de correr. Tinha um motivo pra isso, claro: ele acabara de perceber quão bonita era a paisagem ao seu redor. Como podia continuar correndo enquanto passava por magníficas lixeiras atulhadas até a boca dos mais poéticos detritos, enquanto ouvia o suave e instigante barulho do tráfego,  uma verdadeira sinfonia de buzinas e escapamentos, enquanto respirava aquele ar saturado de poluentes, em quantidade bem superior às 4000 e poucas substâncias tóxicas encontradas no cigarro? Sem contar naquele magnífico céu de inversão térmica, em que as cores da poluição superavam qualquer aurora boreal que um dia pudesse ver.E então decidiu parar e apreciar os lindos aspectos que permeavam sua existência cotidiana. Afinal, a vida é uma só, e tinha certeza de que em paraíso nenhum poderia encontrar semelhante conjuntura de singularidades como as que se lhe apresentavam naquela cidade. Estava a meditar sobre esses assuntos de profundidade inquestionável quando ouviu um estampido terrificante  e sentiu um impacto em sua nuca, logo seguido pela sensação do sangue quente escorrendo por suas costas. Foi aí que se lembrou de por que corria desabaladamente, de por que não devia parar de correr em momento algum (lembrança essa fatalmente olvidada, como bem se percebeu): estava fugindo da polícia.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Suicídio

Quando será que decidira se matar? Bem, pergunta difícil de responder. Não foi assim um insight, aquele tipo de iluminação com direito a trilha sonora e tudo. Mas também não foi resultado de um planejamento de longo prazo. Aliás, ele detestava planejamentos. Sua decisão ficava num meio termo entre esses dois extremos. A ideia vinha lhe visitando faz algum tempo. Como um pensamento meio passageiro, mas recorrente. Daqueles que a gente tem enquanto está na privada e não há nada para ler ou sofre com noites intermináveis de insônia. O motivo? Sinceramente, ele desconhecia. Quer dizer, podia selecionar qualquer um dos vários infortúnios por que passara em sua vidinha medíocre, desde os mais dramáticos (como matar acidentalmente o filho por tê-lo esquecido dentro do carro) até os mais fúteis (no caso, a barriguinha de chope, sempre incomodando). De qualquer forma, pelo que recordava, a certeza viera-lhe durante o banho, na noite anterior, no exato momento em que passava o sabonete por sua virilha esquerda. Depois de decidir, restava escolher o método. Nunca fora afeito a emoções muito fortes, por isso descartou logo se atirar pela janela do décimo andar, se enforcar, se afogar e outras coisas do gênero. Considerou tomar meia dúzia de comprimidos para dormir, mas aí poderia morrer no meio de um sono, ou até de um pesadelo, o que seria horrível sob qualquer ponto de vista. Se tivesse um revólver, atiraria em si mesmo, mas, como fica claro com o uso do subjuntivo, essa hipótese já nasceu impossibilitada de ocorrer. Por fim, resolveu tomar um restinho de veneno de rato, guardado num canto obscuro da despensa. Acordou bem cedo no dia de sua morte. Foi ao banheiro, tomou café, escovou os dentes. Colocou o veneno num copo com água e dirigiu-se ao seu quarto. Queria morrer bem ali, onde passara algumas das piores (e uma ou outra boa) horas da sua vida. O clima não podia ser mais bem apropriado.  Quando aproximou o copo da boca, ouviu a porta do apartamento se abrindo. Em seguida, passos cambaleantes. Era sua esposa. Desde a morte do filho, saía para beber todos os dias, e voltava cada vez mais deplorável. Ele esperou. Quem sabe ela não fizesse com que mudasse de opinião. Após alguns tropeços, seguidos de sonoros palavrões, ela entrou no quarto. Olhou para os olhos do marido. Ele sentia que alguma coisa sairia daquela boca, as palavras mágicas, transformadoras, palavras que ele esperara ouvir durante sua vida inteira, mas que nunca chegaram. Mesmo bêbada, ela entendeu mais ou menos o que estava acontecendo. E sentiu algo crescer dentro dela, algo que precisava pôr pra fora, que se debatia incontrolavelmente. A tensão chegou a níveis insuportáveis. Até que ela falou: "Seu desgraçado, você não pagou a fatura do cartão!" Bem, caro leitor, creio que você pode imaginar o que aconteceu depois.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Felicidade

Ela acordou especialmente feliz naquele dia, tomada por uma felicidade incrível, não do tipo que se experimenta quando se compra ou se come (em todos os sentidos possíveis) algo desejado. Era um tipo de felicidade que atuava como um divisor de águas, como se a vida dela antes daquele dia fosse um passado morto, enterrado e esquecido para todo o sempre amém. Ela se sentia mais que onipotente. Sim, porque muitas pessoas, quando arrebatadas por surtos de euforia, pensam poder se jogar de prédios ou na frente de automóveis que nada lhes acontece. Mas ela estava além disso. Sabia que não precisava fazer nada pra se convencer do quanto estava feliz. Era como se soubesse de um segredo crucial, como a origem da vida, e não quisesse partilhá-lo com ninguém, apenas desfrutar do conhecimento e deleitar-se com isso. Enfim, essa parca descrição dá uma leve ideia (reforma ortográfica já começou ¬¬) do que se passava na mente de uma jovem qualquer num dia de, vejamos... outono, sim, estação adequada. Agora, ela precisava descobrir a fonte dessa felicidade, para que não corresse o risco de perdê-la. E não foi muito difícil encontrá-la: ora, ela estava apaixonada. O que mais, além do amor, poderia provocar algo assim? Era inevitável que, após essa constatação, viesse uma segunda pergunta, tão ou mais importante que a primeira: por quem ela estava apaixonada? Bem, poder-se-ia ver seu sorriso zombeteiro, como a dizer  que importa, isso é o de menos. Ela apenas precisava sentir o amor pulsar em suas artérias, deslizar por sua pele como amarras de seda, que nos seduzem ao mesmo tempo que nos prendem. Estava decidido. A partir daquele dia, estava apaixonada, e isso lhe deixava muito feliz, e não ligaria para mais nada além disso. Ponto. Tinha resolvido. Ah, que sensação boa essa de abandonar-se ao sentimento sem nenhuma preocupação, de ser preenchida por ele sem sentir remorso ou até mesmo medo! Seria realmente maravihoso se tudo acabasse com essa frase, com um típico final feliz. Mas não. No dia seguinte, encontraram-na morta, pendurada por uma corda em seu quarto. O motivo do suicídio? É óbvio que os policiais ou outras pessoas que a viram não têm a mínima noção do que seja, afinal eles não são dotados da capacidade de perscrutar o mais íntimo refúgio da mente das pessoas, mas não deixarei meu caro leitor na mão, já que me foi dado conhecer a triste história dessa garota: ela engordara dois quilos desde a última vez que se pesara.

P.S.: Porque a loucura tem muitas faces, resta descobrir qual delas trazemos conosco.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Apenas um beijo

Ela estava tão feliz! Tinha esperado semanas, meses, até mesmo anos para aquele momento. Nunca pensara que um dia ele finalmente olharia pra ela, a menina tímida de óculos e cabelos crespos sentada na segunda carteira da fileira do meio. É, tudo bem que agora ela tinha feito escova progressiva, algumas luzes e usava lentes de contato, mas ainda assim achava-se pouco frente à beleza fenomenal dele. Deus grego? Não, muito mais que isso. A começar pelos olhos azuis amendoados, que contra a luz adquiriam um leve brilho verde. Depois aquele corpo, másculo e suave, como se fosse esculpido pelas mãos de um Michelangelo. Ah, ia se esquecendo da boca, emoldurada por lábios carnudos, um convite irrestível à volúpia. E os cabelos, eternamente despenteados, loiro-acastanhados, cortados bem curtos. Enfim, tudo nele fazia com que seu coração acelerasse, seus olhos brilhassem, sua respiração ficasse ofegante. Tanto que quase teve um infarto fulminante ao receber aquele telefonema. Pra dizer a verdade, estava até irritada naquele dia, depois de penar com o trânsito horrível e com as grosserias de seu adorável chefe. Disse alô um tanto brusca, mas quando ouviu sua voz de veludo tudo mudou, chegou mesmo a perder a fala. E quando ele fez o convite, então... Podia ouvi-lo dizer encontre-me amanhã à noite no parque do..., preciso muito te beijar. E desligou o telefone. Ela chegou antes do fim do pôr-do-sol. Deleitava-se com a espera. Imaginava ardentemente ele chegando, aproximando-se dela, meu Deus quanta alegria! Às oito e trinta e cinco ele desceu do seu carro e caminhou até ela. Olhou-a nos olhos. Foi levando sua cabeça bem perto da dela, até seus lábios roçarem-se de leve, como se estivessem tímidos ou receosos. Depois, ele abriu sua boca devagar e deixou sua língua encontrar-se com a dela, numa brincadeira travessa de esconde-esconde. Explorou as bochechas, o palato, todas as reentrâncias com as quais entrava em contato através daquele beijo. Era indescritível o sentimento que ela experimentava. Gozo maior não poderia haver. Não existia passado nem futuro, sua vida era o presente, ali, com ele. Nossa, que sensação maravilhosa sentia! Estava tonta de tanto prazer! Inundava-lhe um gosto estranho, sublime, era o seu corpo entrando na ebulição apaixonada que sua mente já desfrutava há muito tempo. Ela enfim desfaleceu. Ele afastou-se lentamente. Retirou o punhal do ventre dela. Limpou o sangue em sua roupa e foi embora. O corpo ficou caído, com o último sorriso petrificado para sempre.

P.S.: "Mas o covarde mata com um beijo" - Mal Secreto.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Um conto de Natal

O Natal estava próximo. Mas ele não tinha absolutamente um espírito natalino naquele momento. Por quê? Olha, se ele quisesse, podia contar as mais comoventes e drmáticas histórias que um ser humano pode vivenciar, afinal ele era escritor, imaginação não lhe faltava. Só que ele preferia ser sincero: não tinha nenhum motivo aparente pra estar naquele baixo astral em pleno dezembrão. Apenas sentia o vazio dentro de si. Um vazio tremendo, gigantesco mesmo, mas também impenetrável. Não adiantava fuçar de quem era a culpa. Nenhum trauma de infância, nenhum problema no emprego, e de forma alguma impotência sexual. Também não se sentia vítima do consumismo desenfreado. Ele se adaptava muito bem a esse estilo de vida. Dava graças a Deus por ser desprovido de preconceitos moralizantes, como ele costumava tachar essa dificuldade que as pessoas têm de aceitar as imposições do titio Capitalismo. Enfim, padecia de um mal sem causa, que o levara até a praça central da cidade, onde agora se encontrava. Estava bem diante da fonte, cuja iluminação fora inaugurada recentemente. A água subia vermelha, ou melhor, brilhantemente vermelha, a cor escolhida para representar o entusiasmo natalino que se alastrava por todo o planeta. Quem dera ele pudesse fazer parte dessa multidão que se encantava com algo tão singelo como a fonte, em seu eterno circular de água iluminada. Olhou o relógio. Já era tarde. Precisava voltar pra casa. Não que sua mulher fosse ciumenta. Mas ele precisava dormir, um novo dia de trabalho aguardava-o amanhã.  Deu uma última olhada na fonte. Virou-se. Colocou a mão no bolso para pegar as chaves do carro. Sentiu um baque na cabeça. Caiu. Quando acordou, estava num lugar semelhante a um porão rochoso, muito úmido. Encontrava-se sentado numa cadeira reclinável, dessas que se encontram facilmente em consultórios de dentistas. Sentia uma leve ardência no braço direito. Olhou e percebeu que havia um agulha enfiada nele, conectada a uma mangueira, por onde seu sangue escoava. Quando deu-se conta onde essa mangueira dava, gritou. Gritou forte. Alto. Berrou mesmo. Estava horrorizado. Ninguém apareceu para lhe ajudar. Então era isso? Assim que tudo aquilo acabaria? Não queria acreditar, mas sabia no seu íntimo que não havia escapatória. Afinal, a água da fonte tinha de continuar vermelha.