quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Fluxo

Delírio, um delírio delirantemente delirante, tudo era vermelho, tudo era rosa, tudo era todas as cores juntas, numa única sinfonia policromática, pancromática, brilhos, luzes ofuscantes, era o canto de roxos rouxinóis que se esgarçavam entre gigantes girassóis, a magia do mundo, a máquina da vida, tudo podia, tudo queria, tudo fazia, o limite da realidade era o sonho, pefumes de todos os tipos, odores, sabores, chocolates com pimentas, sejam malaguetas ou do reino, o que importa é sentir, expandir os sentidos, explorar, extrapolar além do extrapolável, gritar, existir não é nada senão berrar, liberar o ar dos pulmões, crescer, ocupar o espaço todo, nada é maior, nada vence, é isso, domínio, força, poder, muito poder! Pausa... Alegres pradarias transformadas em desfigurados pântanos, onde impera ácido sulfídrico, cianídrico, clorídrico, dor, insuportável, inimaginável, retorce, corrói, desmancha, como é possível, apertos, pedaços arrancados, tudo era um imenso aspirador, a vida sugada, destroçada, reduzida ao pó, nossa incerta origem mas com certeza nosso fim, a magnitude da podridão hepática, pancreática, visceral como um todo, repulsa, nojo, sangue, encefalites, bronquites, artroses, escleroses, ites e oses num pas-de-deux infernal, sem fim, que sufoca e asfixia, deixando apenas a sordidez de monóxidos, dióxidos, multióxidos, todos letais, todos aterradores, que matam e matam e matam. Pausa... Cinza, bege, tons pastéis, nada a fazer, tudo é igual, pra que sorrir, pra que chorar, pra que viver, vou-me indo, perco-me no meio de sedimentos de uma foz em delta, sumo, para nunca mais voltar. Era apenas mais um coração. Apaixonado. Que se foi.

P.S.: "Deixa a doidera bater ..." uashsuahasuh

domingo, 21 de setembro de 2008

Homenagem aos árcades

Relva macia. De um verde brilhante. E luz. Muita luz. Nessas ocasiões, é impressionante como o Sol aparece do nada e graciosamente oferece toda a sua luminosidade. Tiravam uma sesta embaixo do velho carvalho, daqueles repleto de histórias seculares que tanto nos encantam. Ele, abraçando sua linda esposa, de matar de inveja qualquer Marília, contemplava tudo o que tinham. O cenário maravilhoso. O filho, que brincava alegre com as ovelhas. Sim, pois esses animais não podiam faltar numa paisagem tão bucólica como a que pretendia ter. Naquele instante, longe da cidade, longe de todo o estresse, sentia-se um verdadeiro pastor, vocação para a qual a alma humana é naturalmente direcionada. (Pena que não rendesse tanto quanto aplicar em ações, mas enfim, nem tudo é perfeito...). O perfume das flores primaveris inundava-lhe a face, trazendo consigo um sopro de vida sem igual. Acariciou os cachos dourados de sua esposa. Olhou para o filho, que deixara as ovelhinhas para se divertir com uma borboleta. Realmente, não havia felicidade maior. Ao longe, o Sol começava a acanhar-se, descendo suavemente por sob a linha do horizonte. Era esse o momento em que Amor, solto pelos ares, começava a disparar suas setas, envenenadas com o néctar dos deuses, esse que é o sentimento mais profundo e reconfortante. A família precisava retornar para sua rotina. A única coisa que lhes dava forças era saber que, no próximo fim de semana, estariam nesse mesmo local, com algo ainda melhor: uma harpa que o pai mandara fazer. Este recolheu tudo, acordou a mãe, chamou o filho e voltaram pra conturbada urbe, para o seu áureo mas nem um pouco medíocre apartamento tríplex. A mulher, exausta, foi para seu quarto repousar. O homem, por sua vez, acompanhou o filho a uma espécie de sótão, trancou a porta e disse: "Tira a roupa que nós vamos fazer um filme bem legal. Será nosso segredinho, tá?"

P.S.: Créditos à Alzira (XD) e, mais uma vez, a Efeito Borboleta.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Retrato

É difícil descrever uma pessoa como essa. Mas aceito o desafio. Acima de tudo, ressalta nela a insegurança. Nunca sabe o que quer, faz, na maioria das vezes, coisas contraditórias, às vezes totalmente antagônicas. Sua vida, aliás, assemelha-se a um paradoxo. Parece que não caminha. Máscaras tem infinitas. Freqüentemente se perde no meio delas. Deixa-se levar pela fluidez do momento, sempre sorrindo, sempre agradável, porém, no fundo, defende apenas seus próprios interesses. Compaixão inexiste quando sua situação é posta, mesmo que minimamente, em risco. Em suma, constrói sua vida com mentiras e mais mentiras. Inclusive pra esconder seus vícios. Afinal, o que não se faz entre quatro paredes... O pior não é isso: ainda critica aqueles com os mesmos defeitos ou até menores. Sim, já chegou a esse ponto. Percebe-se quão frágil é a pessoa de quem eu falo, por mais duras e intransponíveis que parecem ser suas defesas. No fundo, não passa de uma criança que acabou de largar o peito materno. Perdida. Por completo. Se tem algo de bom? Creio que sim. Tudo tem um ying e um yang. Acontece que é muito desorientada, confusa, e acaba desvalorizando ou então anulando suas realizações construtivas. Paciência. Precisa-se de paciência para compreendê-la. Lembre-se, é um ser humano, esse animalzinho metido a besta que se acha superpoderoso mas não pode nada. Suponho que, a esta altura, o leitor esteja interessado em saber a identidade de tão peculiar pessoa. Pois lhe digo: essa pessoa é você.

P.S.: Peço a compreensão de vocês, pois tudo não passa de um recurso fictício, por isso não fiquem zangados. XD

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Triste fim de um alegre começo

Contrai. Relaxa. No ritmo. Rápido. Sem tempo. Respira. Solta. Dor. Meu Deus, será que isso não tem fim? Lembrava-se do dia em que se conheceram, o jantar maravilhoso no restaurante francês, o som dos violinos enchendo sua cabeça... Sangue. Correndo. Frenético. Sangue. Suor. Sem lágrimas. Sem cerveja. Poros dilatados. Gritos. Berros. Estrondos. Não vou aguentar! Depois, a primeira noite juntos, na praia, a lua cheia, o brilho bruxuleante do que restara da fogueira, o toque dos corpos, sua respiração quente a inundar-lhe o rosto... Mas tudo sumiu. Foi-se. Acabou. Agora só há dor. Muita dor. Lancinante. Por que tinha de passar por isso sozinha? Sal. Na boca. O suor escorrendo em rios. Batidas frenéticas. Coração enlouquecendo. Tudo negro. Só mais um pouco, por favor, preciso resistir. Depois, o abandono, a angústia, o sofrimento, a vergonha perante a família, aquele canalha sumiu do nada, como pode, parecia a pessoa adequada, a mais certa que conhecera... Contrai, relaxa, contrai, relaxa. Artérias pulsando. Rasgos. Os músculos fatigados. Urros de dor. A conseqüência de sua atitude inconseqüente estava aí: sozinha, num quarto, passando por isso, sonhara tudo diferente, o enxoval, a presença dele... Estouro. Internamente um estouro. Depois, relaxamento. Acabou. Ela olha a criança. Os dois únicos seres vivos num raio de muitos quilômetros. Isolados no quarto escuro. Aí estava o maldito fruto de seu ventre. Majestosamente anencéfalo. Sem rosto. Sem vida. Sem nada.

sábado, 13 de setembro de 2008

Tempo . . .

Olhava fixamente um ponto. Não sabia qual. Aliás, não tinha a menor idéia de por que estava ali. Fato totalmente justificável frente ao terrível acontecimento pelo qual acabara de passar. Terrível, não. Traumatizante. Aterrorizante. Destruidor. Tudo o que mais queria, naquele momento, era a morte. Implorara por ela. Mas o destino, impiedosamente, não a trouxera. Por isso continuava lá. Sem nada para preencher seu vazio. Se ao menos pudesse voltar no tempo, evitar aquele instante crucial, aqueles parcos segundos que mudaram completamente sua existência. Só pedia mais uma chance. Será que era demais? Afinal, o que fizera para merecer tudo isso? Não podia, não queria acreditar em tamanha injustiça. O ponto à sua frente começou a piscar. O que estava acontecendo? Decerto, pra completar, ia desmaiar, ter um ataque, qualquer coisa do gênero. Tudo tremia freneticamente. Aí veio a luz. Forte. Estupenda. E então deixou-se levar. Mesmo porque não tinha força alguma para resistir. De repente, sentiu um baque. Estava novamente na fatídica sala. Todos conversavam. Alegremente. Não tinham idéia do que ia acontecer. Mas dessa vez não deixaria. Voltara ali justamente com essa finalidade. Caminhou para o canto, como se fosse invísivel. E deslocou aquela maldita mesa. Pronto. Sentiu um alívio. O peso da culpa sumiu. Ah, como estava feliz! Nada de ruim ia acontecer. Caminhou para a porta. Ouviu um estrondo. Clarão. Gritos. Poeira. Sangue. Tudo aconteceu exatamente como antes.

P.S.: Sob efeito borboleta.

sábado, 30 de agosto de 2008

Opressão

Sentia-se preso. Totalmente preso. A compressão em torno de si era total. Nunca queira passar por isso. É horrível não poder sair, não poder seguir seu próprio caminho, depender da boa vontade alheia para um dia ser alguma coisa na vida. Tudo que ele queria, tudo que ele mais desejava era uma chance para provar o fresco ar da liberdade. Porém não o deixavam. Tinha certeza de que, um dia, mostraria ao mundo seu valor. Maldito o dia em que ele se formou! Maldito aquele que lhe proporcionou essa existência ridícula, inexpressiva! Era comum passar por esses repentes de revolta. Quando estava se conformando, criando esperanças, algo o apertava ainda mais. Assim não dava! O duro é que não tinha pais que lhe consolassem, aliás, não tinha nada nesse mundo a não ser ele mesmo. E não adiantava procurar um culpado. Sabia que sua vida não passava disso. Porém, como é de praxe, depois de o personagem principal reclamar pra caramba, vem o momento da iluminação. Ele percebeu uma movimentação dentro de si. Chegava perto de entrar em verdadeira ebulição emocional. De repente, vê uma porta aberta, que o conduzirá para a vida com a qual sempre sonhou. Fora esse o momento que sempre pedira! Finalmente podia gritar, fazer barulho mesmo, ocupar todo o espaço ao seu redor. Assim constituíram-se seus doces segundos de glória. Sim, porque logo depois foi se dissipando, tornando-se cada vez mais diáfano, até sumir completamente. E assim terminou a história de um pobre e obstinado pum.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Perfil

Acostumara-se a ser odiada por todos. Desde sempre só ouvia reclamações, pragas, xingamentos. Nunca soubera o valor do afeto. E nisso invejava muito os outros: mesmo nas horas de maior dificuldade, como as que já se habituara a presenciar, as pessoas não faltavam umas às outras. Isso lhe provocava um aperto imenso no que podia chamar de coração. Tinha de concordar: nem sempre aparecia nas horas mais propícias. Mas não era culpa dela, apenas seguia as ordens. É, parece desculpa de ex-soldado nazista. Fazer o quê. É impossível convencer a todos. Para efeito de definição da própria identidade, comparava-se ao vizinho chato do segundo andar, que, no melhor da festa, arromba a porta junto com a polícia e acaba com tudo. Daí você pode ter uma leve noção de como odiavam-na. Nunca tentaram defendê-la, e seu discurso era sempre em vão, de modo que começara a aventar a hipótese de desisitir de tudo. Chega uma hora em que o cansaço vence. De que adiantaria, porém? Ainda assim seria incapaz de comover o coração mais mole, de extrair uma minúscula gota de compaixão. Eu sei, é deprimente tudo isso. Acontece que eu prometi escrever até o fim e estou disposto a seguir o meu propósito. Prefiro deixar de fazer qualquer descrição dela, afinal não quero assustar ninguém em demasia. Basta pensar em alguém extremamente infeliz, que deixa os outros em situação pior do que a própria, às vezes, e que não pode largar sua sina. É um bom resumo do que foi dito até agora. Portanto, senhoras e senhores, tenho a honra de lhes apresentar a Morte.